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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Resenha crítica da obra “Justa Palavra”, de Marcio Costa. Por Allan Regis 11 de julho de 2014


O escritor Allan Regis teve a generosidade de passar sua impressão acerca de meu livro, confesso que fiquei bastante lisonjeado com suas palavras e observações, o cara à meu ver consegui de fato pegar toda minha essência nessas poucas e mal escritas cronicas.

Muito obrigado meu caro amigo.


Resenha crítica da obra “Justa Palavra”,

Por Allan Regis 11 de julho de 2014

Cabe ao cronista, como poeta do cotidiano, que é de fato, enxergar, sacar e tirar proveito do que se passa ao seu derredor com ele, com amigos oucom os transeuntes que nem sabem que estão sob o olhar apurado dele que não gastará muitas linhas para relatar tais acontecidos que vislumbrou. O seu dia dia não passará sem lhe render algumas linhas. Eventos aparentemente banais se mostrarão dignos de boas risadas e capazes de ensinar algo a ser refletido. Li esta semana “Justa Palavra”, do escritor Marcio Costa, e, devo confessar, que a obra surpreendeu-me. O autor mostrou-se um excelente cronista e fez-me voltar ao gosto que tinha de ler crônicas. Sua antologia envolvente, formada a princípio em seu homônimo blog que administra (justapalavra.blogspot.com.br), consegue marcar o leitor profundamente, o que desafia o lado efêmero do gênero que costuma nascer cedo e morrer mais cedo ainda. Resgatar estilos parecidos com os encontrados em Stanislaw Ponte Preta, Millôr Fernandes e Lourenço Diaféria, trazendo toda a informalidade, humor satírico, dialogando sobre assuntos íntimos quando não corriqueiros, fazendo suas críticas sem deixar de gargalhar bem alto ao desabafar seus anseios e esperanças, é algo que torna a narrativa de Marcio muito bacana. O autor roda conosco por diversos pontos da cidade de São Paulo, muitas vezes parando em lugares emblemáticos da Zona Leste, de Itaquera, ou de bairros vizinhos, em voltas cheias alto astral e criticismo, colocando-nos em suas conversas entre uma cerveja e outra ou em crises conjugais, bem como em suas decepções quando não em suas piadas sarcásticas, não se incomodando em hipótese alguma, pelo contrário. Cercado de acontecimentos, Marcio soube relatá-los para nós, dando seus pitacos cheios de requinte e estados de ânimo bastante elevados. Vamos encontrar em seus textos as incertezas, as transformações do tempo, questionamentos e indecisões quanto ao futuro das coisas e os receios quanto as mudanças daquilo que se considera importante e digno. Em “A Lousa e o Giz” (página 9), por exemplo, a efemeridade das coisas, o descarte daquilo que se é importante, mas que não recebe o valor devido, são pontos fortes que constitui esta crônica. Vamos encontrar recordações de tempos vividos, de emoções difíceis de serem revividas, lembranças de momentos que trazem saudades, como Giulia Gam em “A moça do Compasso” (página 11) que lhe deu a honra da dança sob o olhar ciumento e despeitado de sua namorada, em pleno Teatro Arena. E o que falar dos lamentos do autor e a forçada aceitação dos ciclos de renovação familiar em “A tesoura e o papel” (página 14), em que reflexões sobre o crescimento e mudança de ares dos entes queridos, principalmente os filhos que se criam como pássaros prestes a voar, traz um profundo pesar que faz-nos recair na síndrome do ninho vazio. Ao tratar de assuntos polêmicos ou que trazem um determinado baixo astral, o autor tem consciência que não pode deixar a peteca cair e que rir é o melhor remédio, por isso sacaneia o tempo todo e gargalha quando parece que vai chorar. Em “A vida como ela é” (páginas 16 e 17), com uma roupagem própria, dando seus toques próprios, resgata sutilmente Nelson Rodrigues, trazendo à tona o problema de se ir como piolho pela cabeça dos outros. Querer beber ou fumar achando que isso é capaz de torná-lo escritor, porque outros escritores o fazem, é um motivo para pensar: se eles derem o cu porque são escritores, você dará também para ser?. Também encontramos a avaliação de atitudes e o tentar entender a vida em sociedade ou a mente individual do ser humano, como os preconceitos se constroem e a estética com humor refinado. Marcio nos leva em suas viagens e nos apresenta pessoas bacanas, muitas vezes excêntricas, esquisitas, fantásticas, amigas, cheias de vida e de histórias para contar. Como em “Carioca” (página 24) que descreve o seu encontro inusitado como uma escritora carioca durante uma viagem à Aracaju e como a relação entre os dois se estabeleceu e se esvaiu com a força do tempo que esfriou, o que traz novamente a ideia da efemeridade das relações. Gostei, sobretudo, da contextualização, da intertextualidade bem presente na obra. Gostei do encontro com Clara Charf na crônica “Miss Dayse” (página 31). Marcio torna-se chofer de uma famosa que vem a um evento e nem se dá conta disso. Leva toques e se toca no auge da situação bastante inusitada. Duvido que o leitor deixe de rir de suas trapalhadas em tragicomédias muito bem escritas. Marcio corre de vacas e bois, perde seus óculos, sempre metido em situações constrangedoras, conduzindo gentes cegas, como um caolho – cego de um olho que ele é, e não tem receio e nem vergonha de assumir – que não consegue enxergar em 3D e nem sequer conduzir a si próprio quem dirá os outros. É claro que é tudo uma grande piada, pois ele brinca o tempo todo, e dificulta-nos levá-lo a sério. Dei boas risadas com “CowNae 2014”, “Dia de Domingo”, “Picha o cu”. “Tira a mão de mim”. E em “Quarentona de parar o trânsito” (página 63), uma de suas melhores crônicas, na minha opinião; uma homenagem à história dos automóveis. Puxa! Personificação sarcástica de uma velha “Belina”, e como um carro antigo pode trazer velhas recordações, saudades de bons e velhos tempos e como o hoje não tem mais paciência para isso. Os gostos culinários de Marcio aparecem a todo momento, sua relação com a esposa Andréa é tratada com muita simpatia e alegria. O cronista reconhece percas do passado, sua importância e sua busca em entender o ontem em relação com o hoje. Consegue dar sentido ao que antes para ele não se tinha. Mostra ao leitor que é possível passar uma fase em branco e conseguir preenchê-la anos mais tarde quando se está maduro. Em “Vingança é um café que se serve frio” (página 83), achei muito divertida a relação entre ele e sua irmã, as traquinagens, como um aprontava com o outro e ao mesmo tempo fui pensando em como também sinto falta das diversões entre irmãos dentro do lar. A reflexão sobre o tempo e quanto se ganha e se perde enquanto ele passa está presente nas crônicas: “Três minutos” (página 78) e “Trocando em Miúdos” (página 80). Suas lembranças engraçadas dos colegas, de alunos - Marcio é professor também! -, os seus reencontros no facebook, batendo papos sobre os velhos tempos e situações vividas em épocas de colégio ou faculdade, defeitos, apelidos, cambalachos, bullyings invevitáveis, peripécias e toda a sorte de vivências das mais estranhas às mais divertidas, Marcio descreve em sua obra e compartilha conosco, leitores que precisamos tanto disso por estarmos sedentos de uma boa conversa num botequim, bebendo e comendo um tira gosto, observando a vida passar e, de quando em quando, resgatando ou ressuscitando defuntos que já não lembrávamos mais que estavam mortos. Vivendo “Sabores e Dissabores” (página 66), refletindo sobre a situação dos jegues no nordeste enquanto almoça com amigos numa casa do norte, ou quando não nos faz lembrar filmes bacanas que podemos tirar alguma moral para tentar considerar melhor as situações da vida. Apresentando fãs enlouquecidas, esquisitas e decepcionadas com seus ídolos, reagindo de forma radical ou rejeitando de forma estranha quem não lhe dá valor de verdade em “Toca Raul” (página 76). Reconhecendo os sentimentos de inveja difíceis de se desvencilhar, em “Síndrome de Ernest Hemingway” (página 71), quando se depara com o texto de um outro ou de uma outra e precisa reconhecer que ele está bom – a autocrítica aparece em Justa Palavra recorrentemente. Vivendo uma epopeia aqui outra ali, carregando uma caixa de isopor de pescados e dez quilos de frango picado, junto com um amigo, pela 25 de março, resolvendo comprar um guarda chuva na Galeria Pajé, tirando sarro e sabendo tirar proveito de tudo, vive e convive Marcio, fazendo menção de ruas dos bairros de Itaquera e seus entornos, de bairros vizinhos e de lugares familiares para quem anda ou mora na zona leste de São Paulo. Ele revela seus tempos estudantis, sua vida familiar, apresenta-nos seus amigos e todo o seu ponto de vista e sua alma nas mais adversas lembranças. Depois de se ver envolvido pela narrativa de do autor, nos tornamos fãs curiosos e ansiosos pelas próximas ironias do cotidiano divulgadas em seu periódico online. A “Voluntariedade: positiva ou negativa”, são trapalhadas, são o cômico de Marcio, que, sempre bem humorado, traz morais de histórias e remete-nos a pensar sobre como a vida pode render uma boa risada no final das contas